- 24/07/2025
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Mais de 50 cidades pernambucanas ficam abaixo da meta de alfabetização, evidenciando desigualdades no ensino
A situação da alfabetização em Pernambuco revela um panorama alarmante e expõe as profundas desigualdades educacionais que persistem no estado. Apesar de uma leve melhora geral — com 59% dos alunos do 2º ano do Ensino Fundamental demonstrando habilidades básicas de leitura e escrita em 2023 e 60,79% em 2024 —, os índices ainda estão aquém da meta estabelecida pelo Ministério da Educação (MEC), de 62,4%.
Dos 184 municípios avaliados, 51 não apenas ficaram abaixo da meta projetada para 2024, como também registraram piora em relação ao ano anterior. Entre essas cidades está Recife, que apresentou um retrocesso significativo: o índice de alfabetização caiu de 62,4% em 2023 para 54% em 2024, distanciando-se ainda mais da meta de 65,29%.
O percentual reflete a proporção de crianças de 7 anos capazes de realizar tarefas simples, como escrever bilhetes e convites, ler textos cotidianos e histórias em quadrinhos, além de reconhecer sílabas e associar sons às letras. Para especialistas, o desempenho de Recife é particularmente preocupante, considerando o contraste entre seu Produto Interno Bruto (PIB) per capita e os resultados obtidos.
“Havia uma expectativa de progresso, especialmente por se tratar da capital. No entanto, o desempenho de Recife está praticamente igual ao de Manari, município que já registrou o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil”, comentou Mozart Neves Ramos, titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira da USP de Ribeirão Preto e professor emérito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Manari alcançou 52% de alfabetização, com um PIB per capita de R$ 5 mil, enquanto Recife, com um PIB per capita de R$ 33 mil, atingiu apenas 54%”, destacou o especialista durante entrevista ao programa *Passando a Limpo*, da Rádio Jornal.
Desafios na Região Metropolitana
A análise dos dados da Região Metropolitana do Recife (RMR) amplia o alerta sobre a crise da alfabetização. “Ipojuca, por exemplo, possui um PIB per capita de R$ 135 mil, mas ainda exibe índices muito baixos. O mesmo ocorre em municípios como Cabo de Santo Agostinho, Abreu e Lima, Camaragibe e Jaboatão dos Guararapes. A RMR precisa de atenção redobrada, pois a alfabetização é a base de todo o processo educacional”, afirmou Ramos.
No ranking regional, Itapissuma se destaca positivamente, superando a meta prevista com 82,95% de crianças alfabetizadas, contra os 78,03% projetados. Igarassu também ultrapassou sua meta, alcançando 66,97%, ante os 65,47% esperados. Por outro lado, cidades como Ipojuca (64,15%, frente aos 70,24%) e Olinda (62,29%, diante de 62,95%) ficaram abaixo das expectativas.
Os índices seguem caindo à medida que se avança no ranking: Camaragibe teve 57,57% de crianças alfabetizadas, contra 62,2% previstos; Paulista registrou 55,54%, frente a 55,98%; e Jaboatão dos Guararapes alcançou 54,98%, abaixo dos 61,03% esperados. Recife aparece com 54,36%, longe dos 65,29% planejados. Na parte inferior da lista, estão municípios como Moreno, com apenas 43,93% de crianças alfabetizadas, bem abaixo dos 57,79% projetados.


Colaboração e financiamento como soluções
Para especialistas e gestores, a reversão desse quadro exige maior colaboração entre os níveis federal, estadual e municipal, além de investimentos consistentes. Andreika Asseker Amarante, presidente da União dos Dirigentes Municipais de Educação de Pernambuco (Undime/PE) e secretária de Educação de Igarassu, ressalta que muitas redes enfrentam dificuldades financeiras que comprometem até mesmo a compra de materiais pedagógicos.
“Há municípios que utilizam 100% dos recursos do Fundeb apenas para pagar salários. É urgente um regime de colaboração que priorize os municípios mais vulneráveis”, defendeu. Ela também aponta outro gargalo: a merenda escolar. “Recebemos R$ 0,56 por aluno, mas o custo real para garantir uma alimentação adequada é três vezes maior”, explicou.
Em Igarassu, políticas públicas como avaliações continuadas e monitoramento pedagógico têm contribuído para o avanço nos índices de alfabetização. Além disso, investimentos em infraestrutura escolar e no acolhimento dos professores têm proporcionado melhores condições para o ensino-aprendizagem.
