- 10/09/2025
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Nepal em Colapso: Protestos Contra Corrupção e Censura Escalam para Crise Política e Militar
O Nepal amanheceu nesta quarta-feira (10) sob toque de recolher nacional e patrulhas militares nas ruas de Katmandu, após três dias de protestos violentos que resultaram em pelo menos 22 mortos e centenas de feridos. O estopim da revolta foi a decisão do governo de bloquear 26 plataformas de redes sociais, medida que rapidamente desencadeou uma onda de insatisfação acumulada contra corrupção endêmica, desigualdade econômica e a concentração de poder nas mãos de uma elite política envelhecida.
Na segunda-feira (8), as forças de segurança reprimiram os manifestantes com munição real, balas de borracha e canhões de água. A maioria dos protestantes era composta por jovens, que denunciavam o abismo entre seus sonhos de futuro e a dura realidade de um país marcado por desemprego e pobreza. O resultado da violência foi devastador: além das vidas perdidas, a crise culminou na renúncia do primeiro-ministro K.P. Sharma Oli e de ministros-chave do governo. No dia seguinte, a revolta atingiu símbolos do poder político, com manifestantes incendiando o Parlamento, a Suprema Corte, delegacias e residências de políticos. As ruas da capital ficaram tomadas por escombros.
A frustração popular reflete o descontentamento de uma geração conhecida como Gen Z, que critica duramente os “nepo kids” – filhos da elite política nepalesa que ostentam uma vida luxuosa enquanto milhões enfrentam condições precárias. Imagens viralizadas mostram herdeiros de ministros exibindo bolsas de grife e carros importados, contrastando com a dura rotina de milhares de nepaleses que continuam migrando para países do Golfo e Malásia em busca de empregos instáveis. Em 2024, as remessas enviadas por trabalhadores no exterior representaram mais de 26% do PIB nacional, evidenciando a dependência econômica do país.
A corrupção é outro fator central na crise. Escândalos envolvendo desvio de verbas em obras de infraestrutura e fraudes relacionadas à falsificação de identidades de refugiados butaneses alimentaram a indignação popular. Apesar de investigações parlamentares, poucos casos resultaram em punição efetiva. Para os jovens, a alternância de poder entre os mesmos três líderes – Oli, Sher Bahadur Deuba e Pushpa Kamal Dahal – tornou-se insuportável, simbolizando um ciclo vicioso de má gestão e impunidade.
Com o Parlamento reduzido a ruínas, o aeroporto internacional fechado e a maior empresa de mídia do país fora do ar após ataques incendiários, o vácuo de poder gerou incertezas. O Exército assumiu formalmente o controle da segurança e convocou a população a devolver armas saqueadas, mas ainda não está claro quem governa o Nepal neste momento de caos. A ONU condenou a violência das forças de segurança e exigiu uma investigação imediata sobre os eventos.
A convulsão social no Nepal ecoa levantes recentes em países vizinhos, como Bangladesh e Sri Lanka, onde protestos liderados pela juventude também derrubaram governos acusados de corrupção e má gestão. Agora, o mundo observa o Nepal, tentando entender se esta crise será um ponto de inflexão ou o prelúdio de uma nova era de instabilidade.
