• 03/03/2026
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O Sangue que Mancha a Estatística: Pedras de Fogo é o Epicentro Proporcional da Morte na Grande João Pessoa

O Sangue que Mancha a Estatística: Pedras de Fogo é o Epicentro Proporcional da Morte na Grande João Pessoa

Um levantamento estarrecedor, realizado pela rádio CBN com base em dados do Ministério da Justiça referentes a 2025, escancara uma realidade cruel: Pedras de Fogo assumiu o triste posto de município com a maior taxa proporcional de homicídios em toda a Região Metropolitana de João Pessoa. Não se trata apenas de números frios; é um retrato de uma comunidade sob cerco.

Com uma população de 29.662 habitantes, a cidade registrou 31 mortes no ano, atingindo um índice avassalador de 1,05 homicídio para cada mil residentes. Para colocar em perspectiva essa carnificina: enquanto em Pedras de Fogo mata-se um cidadão a cada mil, na capital paraibana, esse número cai para um assassinato a cada quatro mil habitantes (0,25 por mil).

A proporção da violência em Pedras de Fogo deixa no rastro outras cidades da região que, embora também sangrem, apresentam índices “menores”. O município supera Alhandra (0,78 por mil), Caaporã (0,75), Bayeux (0,68) e Santa Rita (0,60). É verdade que João Pessoa lidera em números absolutos, somando 223 homicídios, mas o seu vasto contingente populacional dilui a estatística, mascarando a intensidade do impacto que pequenas cidades como Pedras de Fogo sofrem no dia a dia. Ali, a morte não é um evento distante; é uma vizinha indesejada que bate à porta com frequência alarmante.

No entanto, o cenário é ainda mais sombrio quando se olha para os bastidores da justiça. A impunidade campou sua tenda na região. Segundo Higyna Josita, juíza da comarca de Pedras de Fogo, ao longo de todo o ano de 2025, míseras quatro denúncias por homicídio chegaram ao Poder Judiciário local. Isso representa pouco mais de 10% dos casos ocorridos, um abismo entre a realidade das ruas e a resposta do Estado. Ao todo, apenas 13 processos foram julgados na cidade no último ano, incluindo crimes de anos anteriores, o que demonstra um sistema judiciário sufocado pela ineficiência investigativa.

A magistrada não poupa palavras ao explicar o nó górdio que impede o fechamento dos inquéritos: a investigação esbarra na geografia do crime e, principalmente, na lei do silêncio imposta pelo terror. Muitas vezes, o assassinato ocorre em um município e o corpo é descartado em outro, dificultando a apuração da autoria e materialidade. Somado a isso, há o fator mais perverso: o medo. Testemunhas se calam, aterrorizadas pela atuação de facções criminosas que transformam a delação em sentença de morte. Sem coragem de falar, a população vê os assassinos caminharem livres, enquanto a justiça tenta, em vão, juntar as peças de um quebra-cabeça onde faltam as partes mais importantes.

Os dados confirmam o que o povo já sente na pele: embora as grandes cidades concentrem o volume total de corpos, é nas localidades de menor porte, como Pedras de Fogo, que a violência exerce sua pressão mais asfixiante e letal sobre a sociedade. A lista completa da vergonha alheia mostra a hierarquia do sangue na região:

* Pedras de Fogo: 1,05 por mil | 31 homicídios | 29.662 habitantes
* Alhandra: 0,78 por mil | 17 homicídios | 21.730 habitantes
* Caaporã: 0,75 por mil | 16 homicídios | 21.193 habitantes
* Bayeux: 0,68 por mil | 56 homicídios | 82.742 habitantes
* Pitimbu: 0,66 por mil | 11 homicídios | 16.751 habitantes
* Santa Rita: 0,60 por mil | 95 homicídios | 159.121 habitantes
* Cruz do Espírito Santo: 0,53 por mil | 9 homicídios | 17.095 habitantes
* Cabedelo: 0,40 por mil | 28 homicídios | 70.067 habitantes
* Conde: 0,36 por mil | 10 homicídios | 27.605 habitantes
* Rio Tinto: 0,33 por mil | 8 homicídios | 24.581 habitantes
* João Pessoa: 0,25 por mil | 223 homicídios | 897.633 habitantes
* Lucena: 0,15 por mil | 2 homicídios | 13.088 habitantes.

Enquanto os relatórios são preenchidos e as taxas calculadas, famílias em Pedras de Fogo continuam a enterrar seus mortos, esperando uma justiça que, até agora, chegou apenas para uma ínfima minoria dos casos.

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