- 24/03/2025
- Sem Comentário
- 5 Minutos de Leitura
Máfia Italiana e Crime Organizado: Investigação da PF Aponta Atuação da ‘Ndrangheta em João Pessoa

Uma investigação internacional revelou a presença da máfia italiana ‘Ndrangheta no Brasil, com João Pessoa sendo um dos principais pontos de atuação do grupo criminoso. De acordo com uma reportagem do jornal O Globo, os mafiosos movimentaram aproximadamente R$ 12 bilhões no país, utilizando a capital paraibana como base para suas operações de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro.
João Pessoa no Radar da ‘Ndrangheta
No final de 2020, agentes monitoravam conversas em um aplicativo criptografado quando identificaram mensagens enviadas por Vincenzo Pasquino, um dos representantes da ‘Ndrangheta na América Latina. O criminoso mencionava suas conexões no Brasil e Equador e, durante esse período, circulou pelo litoral brasileiro, incluindo Guarujá (SP) e João Pessoa, buscando alianças com o Primeiro Comando da Capital (PCC) para expandir suas atividades ilícitas.
Em maio de 2021, Pasquino foi preso no Brasil e, posteriormente, extraditado para a Itália, onde firmou um acordo de delação premiada. Suas revelações foram cruciais para desmantelar parte da rede criminosa que se espalhava por diversas cidades brasileiras.
A Polícia Federal investiga Anselmo Limeira de Oliveira, ex-assessor parlamentar e ex-candidato a vereador em João Pessoa, por atuar como concierge da máfia no Brasil. Ele intermediava hospedagem, transporte e negociações para mafiosos como Pasquino e Rocco Morabito, um dos criminosos mais procurados da Itália. Oliveira também fornecia documentos falsos, negociava armas e drogas e usava uma construtora de fachada para lavar dinheiro do tráfico, além de influenciar campanhas políticas e buscar contratos públicos.
Empresas de Fachada e Lavagem de Dinheiro
As investigações apontaram que a ‘Ndrangheta utilizava empresas de fachada para lavar dinheiro do tráfico. Um dos principais operadores financeiros era Giuseppe Calvaruso, considerado o “tesoureiro” do grupo. Ele foi preso na Itália após desembarcar do Brasil, onde controlava operações financeiras ilícitas.
Segundo o Ministério Público italiano, cerca de R$ 300 milhões foram movimentados por meio da compra de imóveis, incluindo flats, loteamentos, pizzarias e cafeterias em cidades como Natal (RN) e João Pessoa. Entre as empresas envolvidas no esquema estava a “América Latina Hemisfério Investimentos Imobiliários”, que possuía um capital de R$ 100 milhões.
Resposta das Autoridades
Em nota, a Prefeitura de João Pessoa afirmou que nem o prefeito nem a primeira-dama são alvos do inquérito e que desconheciam o passado criminoso de Anselmo Oliveira. O caso segue sob investigação da Polícia Federal, em colaboração com autoridades internacionais, para desmantelar os tentáculos da máfia italiana no Brasil.
Criptodoleiros e Lavagem de Dinheiro
A prisão de outros dois concierges da máfia italiana no Paraná revelou o modus operandi do grupo no Brasil. A Polícia Federal identificou que uma célula da ‘Ndrangheta utilizava serviços de William Barile Agati e Marlon Santos, presos na operação Mafiusi, em dezembro de 2024. Eles operavam um sofisticado esquema de empresas e criptodoleiros para lavar dinheiro do tráfico internacional de drogas e do PCC.
Entre as empresas ligadas a Agati estavam uma corretora de valores e uma produtora de eventos suspeitas de envolvimento com garimpo ilegal na Amazônia. Um relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) apontou transações do grupo para uma distribuidora de combustíveis, um banco digital e uma distribuidora de bebidas, totalizando cerca de R$ 2 bilhões em movimentações suspeitas.
A defesa de Agati, representada pelo advogado Eduardo Maurício, nega as acusações e alega que ele é “inocente, um empresário de conduta ilibada, sem qualquer vínculo com organizações criminosas”. A defesa de Marlon Santos não foi localizada.
O Fantasma da Calábria
A célula da ‘Ndrangheta identificada pela PF era liderada pelo italiano Nicola Assisi e seu filho. Conhecido como o “Fantasma da Calábria”, Assisi mantinha um apartamento na Praia Grande (SP), de onde negociava operações do grupo no Brasil. Em uma gravação, ele foi flagrado discutindo com um membro do PCC e um guarda municipal do porto de Paranaguá sobre a logística do tráfico.
“Amigo, eu tenho 300 anos de cadeia pra fazer, mas estamos aqui. (…) Mandamos uma tonelada e duzentas esse mês. Demos carro, arma, dei tudo. Nós temos tudo”, disse Assisi, em português com sotaque italiano, oferecendo armamento e outros recursos aos criminosos.
As investigações seguem em andamento para desarticular as operações da ‘Ndrangheta e suas conexões com facções brasileiras.