- 22/01/2026
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Will Bank é liquidado: e agora, os 12 milhões de clientes?
Nesta quarta-feira (21), o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimento — mais conhecida como Will Bank —, instituição controlada pelo já falido Banco Master. A medida afeta diretamente cerca de 12 milhões de clientes que utilizavam os serviços da fintech para cartões de crédito, empréstimos e investimentos, num volume de transações que superou R$ 7,5 bilhões no último ano. A empresa emprega ainda aproximadamente 1,1 mil funcionários.
Na véspera do anúncio, a Mastercard já havia interrompido o uso dos cartões emitidos pelo Will Bank em sua rede. Com isso, todos os plásticos vinculados à instituição foram cancelados e não podem mais ser utilizados.
Quanto aos investimentos, há um alívio parcial: os depósitos na fintech estão cobertos pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC), nos mesmos termos aplicados aos clientes do Banco Master após sua liquidação. O fundo assegura até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, valor que será ressarcido automaticamente aos titulares elegíveis. No entanto, segundo dados do IFData do Banco Central, os depósitos a prazo do Will Bank somavam R$ 6,5 bilhões em setembro de 2025 — o que pode gerar uma nova onda de resgates sem precedentes para o FGC.
Ainda não há estimativa exata do montante que o fundo precisará desembolsar, já que o cálculo depende do número de contas com saldos acima do teto garantido. A CNN entrou em contato com o FGC para esclarecimentos e aguarda retorno.
No site do Will Bank, a instituição reiterava que “todo investimento é protegido pelo FGC” e que, “caso aconteça algum comportamento inesperado no mercado financeiro”, os clientes “não sofreriam perdas”. Contudo, especialistas alertam que essa segurança tem limites práticos.
Rafael Costa, fundador da Cash Wise Investimentos, destaca que, embora o FGC exista, o processo de ressarcimento pode levar tempo — especialmente agora, com dois grandes colapsos simultâneos. “O FGC já está executando o maior resgate de sua história com o caso do Banco Master, com previsão de desembolso de R$ 40,6 bilhões para cerca de 800 mil investidores”, lembra.
E quem tem mais de R$ 250 mil aplicado?
Paulo Feldmann, professor da FIA Business School, explica que, em um cenário hipotético de um cliente com R$ 300 mil em CDBs no Will Bank, apenas R$ 250 mil seriam devolvidos rapidamente pelo FGC. Os R$ 50 mil restantes entrariam no processo de liquidação judicial da instituição — o que pode demorar meses ou até anos, sem garantia de recuperação integral.
Feldmann ressalta ainda que o impacto é particularmente grave para o público-alvo do Will Bank: classes C, D e E. “A poupança de toda uma família poderia estar concentrada nesse banco”, observa. “Mesmo que o valor total esteja abaixo do teto do FGC, muitas dessas famílias não têm acesso rápido a alternativas financeiras seguras.”
Além disso, o especialista alerta que a liquidação do Banco Master já comprometeu cerca de 40% dos recursos do FGC, tornando o fundo mais vulnerável. “Isso deve servir de sinal de alerta para investidores: não basta buscar rentabilidade. É preciso avaliar risco, liquidez e diversificação.”
Costa complementa: “A maior negligência dos investidores iniciantes é confiar cegamente no FGC ou em outras garantias. Elas existem, mas não são infalíveis. O primeiro passo é definir o objetivo do investimento; depois, analisar o risco que se está disposto a correr — e só então escolher o ativo.”
Em resumo, o colapso do Will Bank reforça uma lição dura, mas essencial: segurança financeira não se resume a selos de garantia. Exige discernimento, planejamento e, sobretudo, consciência dos limites do sistema.
