• 13/05/2026
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Esquema de R$ 270 milhões em Cabedelo: Licitações fraudadas e ‘folha paralela’ ligavam prefeitura ao crime organizado

Esquema de R$ 270 milhões em Cabedelo: Licitações fraudadas e ‘folha paralela’ ligavam prefeitura ao crime organizado

Uma investigação conjunta do Ministério Público da Paraíba (MPPB), por meio do Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), e da Polícia Federal (PF) revelou um complexo esquema de desvio de recursos públicos na Prefeitura de Cabedelo, no Litoral Norte do estado. O inquérito aponta irregularidades em contratos milionários firmados com a empresa Lemon, que resultaram em um potencial prejuízo aos cofres públicos estimado em R$ 273,4 milhões.

As apurações serviram de base para uma operação da PF que cumpriu 21 mandados de busca e apreensão e culminou no afastamento do prefeito interino, Edvaldo Neto (Avante). Segundo os investigadores, o mecanismo envolvia a fraude em licitações, a “eternização” de contratos via aditivos sucessivos e a utilização da estrutura terceirizada para inserir membros de uma facção criminosa na administração municipal, configurando uma suposta “folha de pagamento paralela”.

A mecânica do desvio: de R$ 14 milhões a quase R$ 29 milhões

O cerne da investigação foca na contratação direta e na renovação sistemática de serviços terceirizados. Um dos casos mais emblemáticos citados no documento judicial refere-se a um contrato iniciado em janeiro de 2020, oriundo de uma licitação de 2019.

Inicialmente avaliado em R$ 14,9 milhões, o acordo sofreu 11 aditivos consecutivos até janeiro de 2026. Com acréscimos que totalizaram R$ 13,8 milhões, o valor final pago saltou para R$ 28,7 milhões. O Ministério Público destaca que o aumento contratual foi de 93,06% em seis anos, enquanto a inflação oficial (IPCA) no mesmo período foi de 38,2%.

Outro contrato, firmado em fevereiro de 2024 para serviços em unidades de saúde, também apresenta indícios de direcionamento. A investigação aponta que a prorrogação deste acordo ocorreu apenas um dia após a inabilitação de uma empresa concorrente da Lemon em um pregão eletrônico. Para o MPF, houve “indícios de prévio ajuste entre os gestores públicos e representantes da LEMON para direcionamento do contrato”, garantindo a manutenção do monopólio dos serviços.

Conexão com o Comando Vermelho e ‘Folha Paralela’

A operação, batizada em referência às diligências anteriores como continuidade da força-tarefa contra o crime organizado na região, traz à tona depoimentos explosivos. Ariadna Thalia, identificada pela PF como chefe do núcleo de lavagem de dinheiro do Comando Vermelho (CV) na Paraíba e presa em dezembro de 2025, detalhou em seu depoimento a integração entre a facção e o poder público.

Segundo Ariadna, a empresa Lemon era utilizada para empregar pessoas indicadas pela liderança do CV, especificamente do braço conhecido como “Tropa do Amigão”. Os salários desses funcionários seriam inflados artificialmente, e o excedente financeiro desviado para financiar a organização criminosa e pagar propinas a agentes políticos.

“Na prática, esses recursos destinados ao pagamento dos postos de trabalho terceirizados voltavam aos líderes da organização e aos agentes políticos na forma de propina.” — Trecho da decisão judicial

A depoente ainda relatou a existência de acordos políticos. Ela afirmou que o ex-prefeito Vitor Hugo teria atuado para manter o esquema e que, após o rompimento inicial do acordo pelo então prefeito André Coutinho (que demitiu indicados da facção após uma operação da PF em 2024), a facção exigiu a retomada das contratações.

Com a posse de Edvaldo Neto como interino em dezembro de 2025, o esquema teria sido parcialmente reativado. Em contrapartida, a facção garantiria “domínio territorial” durante a Eleição Suplementar de Cabedelo, ocorrida em abril de 2026, impedindo campanhas de opositores em áreas sob controle do crime. *”Fatoka dita o político que vai entrar na comunidade, quem pode fazer campanha, quem não pode”*, relatou Ariadna.

Respostas dos investigados

Todos os envolvidos negam as acusações. Em notas oficiais encaminhadas à reportagem:

Vitor Hugo: Repudiou veementemente qualquer vínculo com organizações criminosas, afirmando não conhecer Ariadna Thalia ou o traficante Flávio de Lima Monteiro, o “Fatoka”.
Edvaldo Neto: Alegou que jamais manteve acertos com o crime organizado e destacou que sua menção no depoimento decorreu de questionamentos do interrogador, sem narrativa espontânea da testemunha sobre sua participação.
André Coutinho: Disse não conhecer a depoente e reafirmou que nunca compactuou com acordos ilícitos, classificando as acusações como infundadas.
Empresa Lemon: Contestou a veracidade do depoimento de Ariadna, lembrando que ela foi demitida por “não corresponder às expectativas” e estava presa quando Edvaldo Neto assumiu. A empresa afirmou pagar todos os salários via transferência digital, negando a existência de pagamentos em espécie ou folha paralela.

Desdobramentos e Afastamentos

O desembargador Ricardo Vital de Almeida, do Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), autorizou o afastamento de Edvaldo Neto e proibiu o acesso às dependências da prefeitura de outras sete pessoas, incluindo os ex-prefeitos Vitor Hugo e André Coutinho, além de servidores e contratados ligados ao esquema.

A atual gestão interina, liderada por José Pereira, já iniciou o processo administrativo para rompimento gradual do contrato com a Lemon, visando evitar a interrupção abrupta dos serviços prestados por cerca de 700 trabalhadores terceirizados.

A investigação continua em andamento, com a análise de documentos apreendidos e novos depoimentos previstos para esclarecer a extensão da rede de corrupção e lavagem de dinheiro que, segundo a Justiça, converteu a estrutura formal da administração municipal em “instrumento logístico e financeiro do crime organizado”.

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