- 18/06/2026
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Mulheres são libertadas de rede de exploração sexual análoga à escravidão em Goiana, PE
Quatro mulheres foram resgatadas de uma situação análoga à escravidão durante uma ação de fiscalização em um estabelecimento de exploração sexual localizado em Goiana, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. A informação foi confirmada na terça-feira (16) pela Auditoria-Fiscal do Trabalho, órgão integrante da “Operação Donos da Noite”, uma força-tarefa dedicada ao combate ao tráfico de pessoas, à exploração sexual e ao trabalho escravo contemporâneo na região Nordeste.
O esquema de exploração revelado pelos auditores era marcado por um ciclo vicioso de dívidas, controle financeiro abusivo e condições degradantes. As vítimas eram obrigadas a arcar com custos de alimentação, higiene, roupas, perfumes, procedimentos estéticos e manutenção de cabelo, todos cobrados a preços inflacionados e definidos unilateralmente pelos exploradores. Esse mecanismo de “servidão por dívida” impedía que as mulheres quitassem seus débitos, fazendo com que muitas terminassem semanas inteiras sem receber qualquer remuneração pelo trabalho prestado.
Além da pressão financeira, as trabalhadoras enfrentavam jornadas exaustivas. Elas ficavam à disposição dos responsáveis desde a tarde até a madrugada, sendo obrigadas a permanecer nos salões aguardando clientes mesmo quando não estavam atendendo, sem autonomia para definir seus horários de descanso. Havia ainda metas impostas para a venda de bebidas e petiscos, cujo não cumprimento resultava em multas que aumentavam ainda mais a dívida das vítimas. Relatos colhidos pelos agentes indicam que havia pressão psicológica para que trabalhassem mesmo doentes ou indispostas, sob pena de punições econômicas.
As condições de moradia também foram classificadas como degradantes. Os auditores constataram que as mulheres viviam em quartos coletivos com pouca ventilação, instalações sanitárias inadequadas e problemas graves de higiene. Em alguns casos, os mesmos ambientes serviam simultaneamente como local de residência e de exploração sexual. A combinação desses fatores — servidão por dívida, jornadas extenuantes, restrição de liberdade e moradia precária — foi determinante para a caracterização jurídica da situação como trabalho análogo à escravidão.
**Rede interestadual e outras operações**
As investigações apontam que os locais fiscalizados faziam parte de uma mesma rede criminosa, administrada por uma empresária e membros de sua família, com atuação em Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte. Há fortes indícios de tráfico de pessoas, com recrutamento de mulheres em outros estados e transferência entre os estabelecimentos controlados pelo grupo. Até o momento, a Operação Donos da Noite já resultou no resgate de 22 mulheres: quatro em Pernambuco e 18 em municípios da Paraíba. As apurações continuam para identificar novas vítimas e responsabilizar criminalmente os envolvidos.
Este resgate ocorre apenas 12 dias após outra operação de grande repercussão no estado. No início do mês, 18 trabalhadores paraguaios foram libertos de uma fábrica clandestina de cigarros no Cabo de Santo Agostinho, na Região Metropolitana do Recife. Atraídos por falsas promessas de emprego formal e salários altos, os estrangeiros encontraram realidade oposta: jornadas de 12 horas, ausência de treinamento, alojamentos superlotados e restrição de liberdade. Após o resgate, o grupo recebeu apoio do Governo de Pernambuco para retornar ao seu país de origem.
